Ao
chegar à praia, poderia ver a areia, as pessoas, os apartamentos chiques, o
céu, o sol, as pequenas e velhas casas, as ruas movimentadas, os quiosques, o
mar. Mas tudo isso fica em segundo plano quando o mar me presenteia com o
horizonte.
O
único lugar onde sinto que o horizonte está completo é junto ao mar. Nessa
exuberante união, os prédios e as pessoas não são obstáculos, mas se colocam
como expectadores e não interrompem sua infinitude, não há luzes ofuscando a
sua imensidão, não há barulhos, se ignorarmos o vento, cortando o seu silêncio.
Junto ao mar, o horizonte existe plenamente, assim como tentamos fazer durante
nossas vidas.
E
o mar é como a vida: está lá para todos. Está lá para aqueles que o contemplam
com alegria por finalmente terem conseguido tirar merecidas férias e, pés na areia,
momentaneamente esquecidos dos problemas de suas vidas cotidianas, aguardam o
momento de jogar-se em suas águas. Está lá para as pequeninas crianças, que
pela primeira, vez tentam decifrá-lo, não entendendo muito bem porque as águas
se erguem até formarem ondas e,de repente, arrebentam com um barulho agradável
e assustador.
O
mar se abre para aqueles dispostos a navegá-lo: os tripulantes dos navios
comerciais que chegam lentamente aos portos, trazendo mercadorias, contrabando
e toda a série de pessoas, produtos e luxos para os homens preencherem seus
vazios. Abre-se para o garoto que nasceu
em sua frente, cresceu aprendendo admirá-lo e conhecê-lo, e a certa altura de
sua vida, dominou o medo, pegou uma prancha e, de repente, domou o mar,
preenchendo o seu vazio com a selvageria de suas águas revoltas, conseguindo
extrair uma emoção que apenas os que, como ele, podem deslizar em uma onda,
conseguem sentir. O mar só se abre
completamente àquelas belas gaivotas, que o contemplam de cima, voando em uma
linha reta, para depois formarem um triângulo e finalmente se separarem e
desaparecerem da vista. Elas conseguem superar todos os limites impostos pelas
águas revoltas, pelas ondas, pelo vento, pelas pedras e pela linha do
horizonte, onde desaparecem.
Mar
e horizonte são a mesma coisa para aquele senhor que o admira, da sacada do seu
apartamento, com um copo de wiskey, na mão, pensando em como a espuma, assim
como seus sonhos, parecem tão sólidas ao se formarem no topo das ondas, mas se
desfazem no seu quebrar e desaparecem sem deixar vestígios, como se nunca estivessem
estado lá.
O
mar é imprevisível. Pode ser apenas uma confusão de águas, ocasionalmente levar
para a profundeza gelada aquele empresário que visita o Rio de Janeiro e, na
pausa entre uma reunião e outra, consegue um tempo para passear na orla, olha
para suas águas sem saber o que fazer, tentando esquecer que dentro de alguns
minutos, terá que decidir entre um acordo que pode salvar sua empresa da
falência e ao mesmo tempo representar uma série de mudanças imprevisíveis. O
mar não existe para aquele jovem que nunca o viu, vivendo no interior do país,
naquela favela pobre e esquecida. Que, antes de aceitar o convite de um brother
para participar de um assalto, vê no céu um reflexo invertido do oceano, as
nuvens como ondas a avançarem com o vento, aguardando para serem domadas. E a depender de qual caminho escolher para
domar as ondas ou as nuvens, esse jovem nunca será presenteado com o horizonte
e nunca nadará nas águas de um mar de verdade.
O
mar, como a vida, é importante para mim neste momento. Pode não ser amanhã.
Pode não ser para você.
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