sábado, 13 de abril de 2013

Um sonho de bebê


Sonhei com nuvens de algodão
A noite, onde estarão?
Com  mãozinhas a agarrar
Sonhei que já sabia andar

Sonhei com o colo da mamãe
Sonhei que voava com o papai
Com água, que linda do céu cai
Com o sol, que no céu vem e vai

Em uma gota eu estava
Com meu cachorro a nadar
O rabo do gato eu puxava
Depois de atrás dele engatinhar

Sonhei que o mar era meu amigo
Na praia, a rir não sei do que
Que a vida nasceu e cresceu comigo
Sonhei um sonho de bebê

terça-feira, 2 de abril de 2013

A vida sob o mar


Ao chegar à praia, poderia ver a areia, as pessoas, os apartamentos chiques, o céu, o sol, as pequenas e velhas casas, as ruas movimentadas, os quiosques, o mar. Mas tudo isso fica em segundo plano quando o mar me presenteia com o horizonte.
O único lugar onde sinto que o horizonte está completo é junto ao mar. Nessa exuberante união, os prédios e as pessoas não são obstáculos, mas se colocam como expectadores e não interrompem sua infinitude, não há luzes ofuscando a sua imensidão, não há barulhos, se ignorarmos o vento, cortando o seu silêncio. Junto ao mar, o horizonte existe plenamente, assim como tentamos fazer durante nossas vidas.
E o mar é como a vida: está lá para todos. Está lá para aqueles que o contemplam com alegria por finalmente terem conseguido tirar merecidas férias e, pés na areia, momentaneamente esquecidos dos problemas de suas vidas cotidianas, aguardam o momento de jogar-se em suas águas. Está lá para as pequeninas crianças, que pela primeira, vez tentam decifrá-lo, não entendendo muito bem porque as águas se erguem até formarem ondas e,de repente, arrebentam com um barulho agradável e assustador.
O mar se abre para aqueles dispostos a navegá-lo: os tripulantes dos navios comerciais que chegam lentamente aos portos, trazendo mercadorias, contrabando e toda a série de pessoas, produtos e luxos para os homens preencherem seus vazios.  Abre-se para o garoto que nasceu em sua frente, cresceu aprendendo admirá-lo e conhecê-lo, e a certa altura de sua vida, dominou o medo, pegou uma prancha e, de repente, domou o mar, preenchendo o seu vazio com a selvageria de suas águas revoltas, conseguindo extrair uma emoção que apenas os que, como ele, podem deslizar em uma onda, conseguem sentir.  O mar só se abre completamente àquelas belas gaivotas, que o contemplam de cima, voando em uma linha reta, para depois formarem um triângulo e finalmente se separarem e desaparecerem da vista. Elas conseguem superar todos os limites impostos pelas águas revoltas, pelas ondas, pelo vento, pelas pedras e pela linha do horizonte, onde desaparecem.
Mar e horizonte são a mesma coisa para aquele senhor que o admira, da sacada do seu apartamento, com um copo de wiskey, na mão, pensando em como a espuma, assim como seus sonhos, parecem tão sólidas ao se formarem no topo das ondas, mas se desfazem no seu quebrar e desaparecem sem deixar vestígios, como se nunca estivessem estado lá.
O mar é imprevisível. Pode ser apenas uma confusão de águas, ocasionalmente levar para a profundeza gelada aquele empresário que visita o Rio de Janeiro e, na pausa entre uma reunião e outra, consegue um tempo para passear na orla, olha para suas águas sem saber o que fazer, tentando esquecer que dentro de alguns minutos, terá que decidir entre um acordo que pode salvar sua empresa da falência e ao mesmo tempo representar uma série de mudanças imprevisíveis. O mar não existe para aquele jovem que nunca o viu, vivendo no interior do país, naquela favela pobre e esquecida. Que, antes de aceitar o convite de um brother para participar de um assalto, vê no céu um reflexo invertido do oceano, as nuvens como ondas a avançarem com o vento, aguardando para serem domadas.  E a depender de qual caminho escolher para domar as ondas ou as nuvens, esse jovem nunca será presenteado com o horizonte e nunca nadará nas águas de um mar de verdade.
O mar, como a vida, é importante para mim neste momento. Pode não ser amanhã. Pode não ser para você.